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O “morto” no dominó pernambucano

branco e pio (1)O dominó está, para os nordestinos, assim como o truco está para os paulistas, é o jogo dos vigias, dos peões de obra, é sobre uma mesa de dominó que a noite se estende nos bares da periferia. É sobre uma mesa de dominó que aulas e aulas de faculdade são “gazeadas” sem a menor cerimônia.  As regras do jogo de dominó sofrem pequenas diferenças entre os estados do Nordeste, tive oportunidade de jogar umas partidinhas na Bahia e descobri que, assim como acontece no carnaval, Pernambuco e Bahia possuem divergências em relação ao dominó.


Sempre que se juntam pernambucanos e baianos em uma mesa de dominó, recomeça a polêmica. O baiano, assim como o pernambucano, nutre uma paixão pelo jogo das 28 pedras, porém, assim como em várias outras questões culturais, existem diferenças relevantes entre o dominó jogado nos dois estados. A discórdia já começa pela nomenclatura das peças e das jogadas: carroça é bucha, la e lô é lasquinê, e partida é peça, só pra dar alguns exemplos. Porém as diferenças não ficam por aí, a pontuação também é diferente, é 1, 2, peça, duas peças ganha o jogo. Tudo isso é administrável, abrimos mão de jogar na nossa pontuação mais simples de um a seis, aceitamos a nomenclatura estranha e até a contagem esquisita do placar imposta pelos baianos, o bicho pega mesmo é quando a regra em questão é o morto.

Devo dar o braço a torcer, o cara que inventou o dominó certamente não pensou no morto, fez o jogo para que todas as peças fossem utilizadas. O morto no dominó (aquelas quatro pecinhas que ficam de fora e que só retornam na mão seguinte) é mesmo invenção de pernambucano. O morto do dominó, ao contrário do morto do buraco, não é usado em momento algum, ele morre e permanece morto para todo o sempre. O único intuito daquelas quatro pedras é dar vez ao imponderável, é trazer o fator surpresa, é evitar que o dominó se torne uma ciência exata. No morto estão as incertezas. O dominó baiano é chato porque falta morto, contando as pedras se sabe tudo, se sabe demais.

Há controvérsias quanto ao surgimento do morto. A versão oficial conta que em 1917, numa tarde de sábado no bairro de Casa Amarela, não havia quorum suficiente para o jogo de duplas, e três jogadores sentaram-se para jogar individualmente, com 9 pedras para cada um, perfazendo um total de 27. Uma pedra sobrou, criando o primeiro morto da história. Lá pelas tantas seu Zé Carroça (octa-campeão da liga de Casa Amarela, e conhecido às do dominó na década de 10) já comemorava sua vitória, pois o jogador do lado teria que levantar seu pio. O jogo valia 3 contos de réis, e Zé Carroça precisava como nunca deste dinheiro para pagar os agiotas que não saíam do seu pé. Eis que isso não acontece, o jogador do lado toca, não levanta o pio, e o terceiro jogador (João Zabumba, o pior jogador do bairro, que levou este apelido pela freqüência com que tocava) bate e leva todo o dinheiro. O branco e pio, a peça que Zé Carroça esperava e que nunca veio, estava no morto, o morto havia trazido o imponderável, e Zé Carroça entrou pelo cano.

Zé Carroça suicidou-se horas depois. Os amigos que o viram ali deitado, todo de branco, com um cinto preto e um buraco de bala no meio do peito, afirmaram que ele parecia um “branco e pio”, a fatídica peça que lhe faltou na hora H. A ironia do destino fez com que o morto (seu Zé carroça) se parecesse ele mesmo com aquele morto (o branco e pio) que havia selado seu destino. Após este episódio o morto passou a ser tido como coisa do capeta, e jogar com morto passou a ser terminantemente proibido em todas as ligas da cidade. Como tudo o que era proibido, o jogo com morto ganhou força no submundo das ligas clandestinas, e o morto de quatro pedras passou a ser utilizado no jogo de duplas.

Alguns anos depois um fato inusitado trouxe o morto de volta à legalidade, quatro cavalheiros da alta sociedade pernambucana foram vistos jogando com morto nos salões de aristocrático clube da cidade, a notícia foi amplamente divulgada por um jornal local como um escândalo. O jornal concorrente, de propriedade de um dos cavalheiros em questão, correu para defender a honra do seu proprietário e lançou uma série de reportagens defendendo que a utilização do morto não era um desvio de conduta, e que até Jesus Cristo teria jogado umas partidinhas com morto junto aos seus apóstolos logo após a santa ceia (há uma teoria, inclusive, que afirma que Judas fez o que fez por ter levado uma “buchuda” naquela noite. Havia dito o Senhor: “apenas Deus e os perus sabem de tudo, aos jogadores restará a dúvida”.

A série de reportagens fez com que o morto passasse a ser aceito e adotado de vez pelas ligas da cidade, se tornando, junto com o frevo e o bolo de rolo, um dos símbolos da nossa cultura.


Pequeno glossário para não pernambucanos:


Nome dos números 0,1,2,3,4,5 e 6: Branco, Pio, Duque, Terno, Quadra, Quina e Sena

Carroça – Peça dupla (quadra e quadra, quina e quina, etc).

Gazear Aula – Matar Aula

Bater – ser o primeiro a livrar-se de todas as peças

Tocar – Não ter pedra pra jogar na sua vez, passando o jogo para o próximo jogador

Lá e Lô:  Quando se bate com uma pedra que serve nas duas “cabeças”

Buchuda: Vitória por 6 a 0

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Economistas for Dummies

3 Economists

Por algum motivo que não me recordo agora, sou economista de formação, de forma que neste assunto posso me aprofundar um pouco mais, mas não muito. A intenção desse texto é permitir ao leitor entrar no mar de conhecimento dos grandes economistas só até enquanto dá pé.  Vamos ficar no raso mesmo… (ah, e vamos mais uma vez entender as influência desses caras na música popular, e dessa vez também no futebol).

Adam Smith – Sociólogo Escocês do século 18 – o cara do “deixa rolar que no final dá tudo certo”

Pregava, entre outras coisas que ao permitir que cada agente econômico (cada um de nós), agisse de forma “racional”, seguindo seus próprios interesses, teríamos um equilíbrio perfeito.

Existia, para Smith, uma “mão invisível” que unia o interesse de venda de um com o interesse de compra do outro.  A mão invisível era a principal responsável pelo equilíbrio na economia, onde o governo deveria se meter o mínimo possível.

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